Não leia nada sobre esse jogo
A única progressão é o que está na sua cabeça. Isso significa que qualquer coisa que te contarem rouba algo que não volta — inclusive esta resenha, então pare de ler e vá jogar.
Filme, série, anime, mangá, livro, jogo, HQ — a mesma nota, o mesmo perfil, a mesma conversa. Escreva o que achou e descubra gente com gosto parecido com o seu.
42 resenhas · 49 obras · 6 pessoas
A única progressão é o que está na sua cabeça. Isso significa que qualquer coisa que te contarem rouba algo que não volta — inclusive esta resenha, então pare de ler e vá jogar.
Vinte e poucos anos depois ainda não apareceu filme brasileiro que monte uma sequência como a do apartamento. O que me pega não é a violência, é a economia: cada personagem ganha nome, função e destino em três planos.
Revi agora prestando atenção só no Buscapé e percebi que o filme inteiro é sobre alguém tentando escolher a profissão que vai deixar ele vivo.
Comecei achando que ia ser mais uma série de cidade pequena com criança sumida e terminei desenhando árvore genealógica no caderno. O que impressiona é a disciplina: cada pergunta da primeira temporada tem resposta na terceira, e nenhuma é trapaça.
Miura desenhava multidão como ninguém e usava isso a favor da narrativa: quanto mais gente na página, mais sozinho o Guts parece. A Era de Ouro é um arco perfeito e o que vem depois é sobre reconstruir alguém que foi destruído.
É um anime sobre alguém que só entende a importância das pessoas depois que todas morreram. O ritmo é lentíssimo de propósito e cada flashback recontextualiza uma cena que você já tinha achado boba.
A Clarice escreve o desconforto de estar escrevendo. O narrador ser um homem que não sabe o que fazer com a Macabéa é a decisão mais inteligente do livro.
O Yuasa desenha movimento como ninguém. Cinco personagens, cinco arcos completos, onze episódios. Não sobra nada.
O Fujimoto escreve como quem não tem medo de errar. Metade das escolhas não deviam funcionar e funcionam justamente por isso.
A virada acontece exatamente na metade e o Bong te deixa rir por quarenta minutos antes de cobrar. Cheiro é o detalhe que organiza o filme todo — é o que dinheiro nenhum disfarça.
Trocar guerra por fazenda fez muita gente desistir e é exatamente o ponto da obra. Um mangá de vikings que decide ser sobre pacifismo é a coisa mais corajosa da temporada.
Não te dão o mapa: você compra, desenha e se perde. Foi a decisão mais corajosa do jogo e é por ela que Hallownest fica na memória como lugar, não como fase.
A cena do teto do reator é curta e me deixou sem ar. Mas o horror mesmo é burocrático: gente educada numa sala decidindo que o número que aparece no aparelho é o número máximo que o aparelho mede.
Começa como mangá de luta e vira um tratado sobre parar de brigar. Os capítulos na aldeia, plantando arroz, são os melhores da obra — e é justamente onde a maioria desiste de ler.
A primeira parte é quase perfeita. A troca de narradora no meio do livro é um risco que dá certo, e o terceiro bloco eu ainda estou digerindo meses depois.
A primeira é ótima, a segunda é outra coisa. No instante em que o padre percebe que ela olha para a câmera, um truque de comédia vira o assunto da série inteira.
Trocar combate por uma discussão interna de vinte e quatro vozes devia ser insuportável e é o contrário. O teste de dado que você falha costuma render cena melhor do que o que você passa.
Os gêmeos brasileiros fizeram uma HQ sobre obituários que é, no fim, sobre o oposto. Li em uma sentada e reli no dia seguinte.
Funciona melhor quando é estranho e menos quando explica. A primeira meia hora, com a cidade sumindo do mapa e o caixão descendo a estrada, é das melhores coisas do cinema brasileiro recente.
Não é entretenimento, é experiência controlada de mal-estar. O Asano acerta o desenho do pássaro justamente porque te obriga a projetar tudo no personagem mais vazio da página.
Morri mil e poucas vezes e nunca me senti punido. O modo assistência estar ali, explicado sem julgamento, é design de gente adulta.
O episódio em plano-sequência é o melhor retrato de ansiedade que a TV já fez. Perde um pouco quando a série lembra que precisa ter arco de temporada.
Larguei duas vezes antes de conseguir. O truque que funcionou pra mim foi ler em voz alta as primeiras cinquenta páginas — o Rosa escreve para o ouvido, não para o olho.
Urasawa é o melhor do mundo em construir mistério e apenas mediano em fechá-lo. Ainda assim, os volumes do meio são impossíveis de largar.
Envelheceu melhor do que quase tudo de 98. Cada episódio é um curta autossuficiente e mesmo assim o final tem peso de série longa.
Passei mais tempo pescando do que na história principal e não me arrependo. O jogo pede paciência de um jeito que quase nenhum blockbuster pede, e quem aceita recebe o melhor epílogo do gênero.
Capítulos que quase não se ligam, e é essa a forma certa para uma família que também mal se comunica. A Baleia tem o melhor capítulo do livro e isso diz muito sobre o resto.
Vinte minutos a mais do que devia e ainda assim funciona, porque toda a bagunça multiversal existe para uma conversa entre mãe e filha numa escada rolante.
Varda filma o tempo real e mesmo assim o filme parece atravessar uma existência inteira. A cena do espelho quebrando no começo já entrega tudo, e ainda assim você chega no parque sem esperar o que sente.
Não tenha vergonha de desenhar o diagrama dos Buendía. O livro é sobre repetição e a confusão dos nomes é proposital, mas ninguém precisa sofrer sozinho.
Funciona muito bem como thriller e muito mal como sutileza. O problema não é a mensagem óbvia, é que a segunda metade repete a estrutura da primeira sem escalar nada.